quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Dexter Está na Revista Veja!

(Contém Spoilers)

Chico picadinho

"O sucesso do psicopata Dexter confirma: nas séries
americanas, ser herói já não basta. Tem de ser mau"


Por: Marcelo Marthe

Técnico legista da polícia de Miami, Dexter Morgan (Michael C. Hall) sente um arrepio de prazer quando um brutamontes musculoso comparece à delegacia onde trabalha. "Ele é uma montanha a escalar. Eu preciso tê-lo", pensa. Não, Dexter não é gay. O desejo que sente pelo fortão é de outra natureza: uma vontade incontrolável de submetê-lo ao que chama de "tribunal da faca". O herói da série americana Dexter, cuja segunda temporada estreou na semana passada no canal pago FX, é um psicopata. Mas não um psicopata qualquer: na infância, ao notar seu pendor para o homicídio, o pai adotivo o adestrou para só matar outros assassinos. Nos seus "tribunais", Dexter amarra as vítimas, tortura-as até confessarem seus crimes – e faz picadinho delas. No livro que deu origem à série, Dexter – A Mão Esquerda de Deus (recém-publicado no Brasil pela Planeta), o personagem confessa que matar é um "suave relaxamento". Dexter perturba porque, apesar de ser o que é, tem-se simpatia por ele. Ainda que seja incapaz de afeto e sinta repulsa por sexo, é um bom irmão, um namorado esforçado e um funcionário valoroso (e a interpretação de Michael C. Hall, de A Sete Palmos, o torna assustadoramente crível). À base de humor negro, coloca-se a maldade em perspectiva.

Tipos perversos, mas sedutores – eis a ambivalência que deu o tom ao melhor da teledramaturgia americana nos últimos anos. O marco dessa tendência é o mafioso Tony Soprano, de Família Soprano. O personagem de James Gandolfini recorria a sessões de psicanálise para lidar com suas angústias existenciais. Mas isso não o impedia de matar parentes e parceiros sem pestanejar. Outros vieram depois dele. Com base na quantidade e na gravidade dos crimes que cometeram, é possível estabelecer até uma certa hierarquia. O médico Gregory House (Hugh Laurie), de House, é preconceituoso e despreza seus pacientes. Isso faz dele um sujeito cruel – mas não hediondo. Caso pior é o de Patty Hewes, a advogada vivida por Glenn Close em Damages. Ela fez chantagem e encomendou o assassinato do cão de uma testemunha e da própria estagiária (nesse caso, foi uma tentativa frustrada). Embora seja horrorosa, Patty não é assassina – detalhe que a torna menos abominável do que o detetive Vic Mackey (Michael Chiklis), de The Shield. O personagem estorque, tortura e mata sem prestar contas à Justiça. No ranking da maldade, está no mesmo patamar de Tony Soprano. Mas ambos perdem para Dexter, o carniceiro.

O público não sente ojeriza por esses personagens pelo fato de eles terem fraquezas humanas. Além disso, a ausência de ética e de sentimentos é sempre relativizada. No início da segunda temporada de Dexter, é o apelo da mãe de um jovem assassinado que desperta nele a ânsia de esquartejar o tal brutamontes. "Dexter dá a chance de nos vingarmos das pessoas que burlaram a lei e escaparam ilesas", disse a VEJA o escritor americano Jeff Lindsay, criador do personagem. Não dá para perder de vista, contudo, que o anjo vingador é um monstro. No capítulo da semana passada, a polícia descobriu os cadáveres de trinta vítimas suas. Estavam no fundo do mar, embalados em sacos plásticos, aos pedaços.

Fonte: http://veja.abril.com.br/151008/p_182.shtml

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