quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Michael C. Hall fala sobre Dexter e mais [Entrevista]

Michael C Hall que ficou famoso em grande parte por seus papéis envolvendo gente morta, primeiro como diretor de uma funerária em "Six Feet Under" (A Sete Palmos) e como um sociopata assassino em "Dexter", agora em sua sexta temporada. Na Nova Zelândia para promover a última, ele falou para Rebecca Barry Hill sobre seu sucesso, sobreviver a um câncer e encontrar significado na natureza.

A vida é curta. Ninguém sabe isso melhor do que Dexter, o assassino em série amigável da televisão, que, ao contrário dos homicidas que ele despacha, sobreviveu há seis temporadas. Michael C Hall, o ator que o interpreta, sabe disso também. O vencedor do Globo de Ouro chegou a Nova Zelândia com pouco alarde no último mês, acompanhado pelo seu agente e melhor amigo, Ben. Sentado em um banco de parque com vista para o sol da manhã brilhando na zona portuária de Auckland, vestido com jeans e um moletom cinzza, ele traz o olhar melancólico de um turista - e um itinerário de um também.

Enquanto em uma turnê promocional para o Canal Soho da Sky que exibe tanto  a sexta temporada de Dexter Six Feet Under quanto a outra série mortal de Hall, Six Feet Under, a estrela tem planos para terminar o longo dia no Tongariro Alpine Crossing, andar de caiaque no Midford Sound, dar uma olhada no Queenstown e almoçar em Waiheke ISland. Se sobrar tempo, ele vai mergulhar. Não há descanso para os ímpios, então?

"Vivendo em Los Angeles, eu tenho a oportunidade de sair para o mundo real. Mas não se compara a isso."

Se o pensamento de Hall remando no deserto parece estranho, é provavelmente porque é complicado separá-lo do seu alter ego. Os traços que fazem de Dexter um personagem tão sedutor estão vivos em Hall também: o comportamento afável por indícios de uma mente profunda e calculista. Ele se inclina, ou se afasta, quando fala, dependendo do seu gosto para a pergunta. Perguntado sobre a conecção entre seus personagens mórbidos na TV, ele respira pesadamente, cruza os braços, e olha para fora em direção ao horizonte.

"Eu certamente não esperava ficar cercado por mortos durante a última década, mas eu acho que tem que ser mais do que uma coincidência."

Dexter é um personagem complexo, um analista de respingos de sangue em Miami de dia, eliminador de bandidos a noite, um sociopata tentando usar seus impulsos assassinos para o bem. Dexter deve também fingir ser alguém que não é para evitar atrair atenção para sua obsessão após o expediente, sua natureza alegre constantemente em conflito com a narração inexpressiva do personagem. A grande habilidade de Hall, algo que já lhe rendeu várias indicações ao Emmy por conta do papel, é sua capacidade de agir dentro do ato. E é crédito seu que os telespectadores se identifiquem com um cara que envolve suas vítimas em plástico e as tortura um pouco antes do golpe final. Hall dá de ombros para a dificuldade de interpretar um personagem tão dúbio.

"Eu me considero o guardião da verdade do personagem e opero a partir daí. Se tem coisas no script que eu sinto que estão fora de sincronia com o sentido da sua verdade, então eu vou colaborar com nossos roteiristas e diretores para que isso funcione. Mas há uma comunicação real que não precisa ser dita, uma intuição do que está acontecendo nesse momento entre os atores e a equipe de roteiristas. Nós conhecemos esses personagens tão bem e temos vivido com esse material por tanto tempo. Algumas vezez você simplesmente tem que sair do seu caminho e deixar que a história se conte."

A sexta temporada gira em torno da fé e da crença, como Dexter tenta o seu melhor para cultivar uma vida espiritual para sua prole, enquanto explora os lados claros e escuros do que os assassinos fazem em nome de Deus. Hall de quarenta anos admite-se um curioso espiritual, embora se incline mais para o que está "no momento". O que pode explicar o amor pelas atividades ao ar livre. Ou atuando, aliás.

"Eu espero ter alguma experiência direta do que poderia ser chamado divina, uma direta experiência de Deus. Eu não sou parcial ao dogma ou religião organizada. Se alguém reivindica algum tipo de verdade fundamental, isso me deixa nervoso. Algumas vezes uma experiência sublime do mundo físico pode sentir como espiritual," ele acrescenta, apontando para a vista. "Todos os momentos são divinos se você pode ser plenamente vivos para eles."

Muito do que aconteceu na vida pessoal durante as seis temporadas em que Dexter ficou no ar. No final da quarta temporada, ele foi diagnosticado com Linfoma de Hodgkin. Um câncer tratável, ele foi submetido a quimioterapia durante o hiato.

"Eu sei que um diagnóstico de câncer não é motivo para comemorar, mas tive uma verdadeira sensação de alívio e gratidão por eu ter algo que eles sabiam o que fazer com ele. Me senti confiante desde o início de que eu seria curado."

"Basicamente com todo o venedo entrando no meu corpo, tentei contê-lo. Eu realmente só queria comer quando eu podia, descansar quando eu precisava e ir passando por isso. Isso era mais no dia a dia. Sempre fui fisicamente ativo e tentei cuidar de mim, então eu não sei se o episódio teve alguma grande mudança no meu comportamento."

Poucos meses depois ele recebeu um atestado de saúde, Hall experimentou mais uma turbulência pessoal.Ele e sua segunda esposa, Jennifer Carpenter, que interpreta a irmão adotiva de Dexter, Deb, na série, se dovorciaram após dois anos de casamento. Ele admite que é complicado trabalhar em um ambiente intenso como esse com sua esposa, mas que o estresse não afetou sua dinâmica de trabalho.

"Eu não acho que o meu relacionamento com Jennifer terminou por completo, acho que mudou. Continuamos amigos queridos. Como colegas temos um comprometimento com o outro, com os nossos personagens, com a série, está tudo muito bem. De verdade.

"Há muito respeito mútuo e afeição entre a família de Dexter. É um lugar realmente bom para trabalhar e estamos fazendo isso há tanto tempo que as pessoas realmente apreciam o ambiente único de trabalho. Mas é uma forma profunda de trabalhar e isso que fazemos existe um certo grau de confiança, por isso há muito carinho residual."

A família real de Hall tinha um vínculo semelhante, embora ele mantivesse seus desejos mais profundos para si mesmo. Ele cresceu em Raleigh, Carolina do Norte, e teve uma infância feliz, embora ocasionalmente solitária. Quando ele não estava brincando com seus primos, ou cantando no coral da escola, Hall se perdia em seus pensamentos. Filho único, seu pai morreu de câncer na próstata, quando Hall tinha apenas 11 anos. Seu pai nunca soube das aspirações teatrais do filho.

"Desde criança tive experiências atuando e isso mexeu comigo mais do que qualquer outra coisa que eu fiz. Sonhava em ser ator, mas não compartilhava esse sonho com ninguém. Eu não anunciei isso em voz alta para mim mesmo. Acho que algumas vezes, para manter as coisas perto, mantê-las em segredo, mantê-las protegidas das pessoas que oferecem opiniões indesejáveis ou desânimo. Eu também pensava que os atores que via em filmes ou na TV vinham de um mundo diferente. Eu não conhecia ninguém que fosse ator. Ninguém da minha família era de artes ou um artista ou nada desse tipo, então eu não tinha noção do que fazer sobre isso."

Apenas quando foi para a faculdade e teve uma aula de atuação que ele começou a levar isso a sério, acabando por completar um mestrado em Artes Dramáticas na Universade de Nova York. Hall foi bom o suficiente para conseguir alguns papéis no palco do teatro regional que pagaram o aluguél e lhe permitiram manter o foco na atuação tempo integral. Ele já atuou em mais de uma dezena de shows na Broadway, incluindo Macbeth, Corpus Christi e Wise Guys. Em 1999, quando Hall tinha 28, veio um grande avanço: o diretor Sam Mendes o escalou como o MC na produção da Broadway, Cabaret, um papel que também pediu pelo seu talento para o canto.

"Ser escolhido como estrela em uma produção dessa qualidade, um dos melhores musicais, é mais do que aconteceu antes ou depois. Aquele foi o momento no qual eu pensei, ok, esse é o meu caminho."

Em 2003, Hall fez uma turnê como Billy Flynn no musical Chicago e em 2005 ele retornou para um teatro fora da Broadway na estréia de Noah Haidle de Marmalade, interpretando o personagem título, um amigo imaginário emocionalmente perturbado da garotinha.

Foi Mendes que recomendou Hall quando estavam escolhendo o elenco para dar lugar a Six Feet Under. Hall se viu mudando completamente de rumo. Da exuberância de Cabaret, ele então abordou o papél de um homem gay enrustido. A série durou cinco temporadas e foi um sucesso crítico e comercial.

"Me sinto um sortudo. Quando Six Feet Under terminou eu pensei que talvez eu simplesmente parasse. Eu tinha um apreço por quão original essa experiência foi. É uma coisa milagrosa quando todos os elementos necessários para fazer uma série televisiva se reúnem, e me encontrar no meio de outra experiência que já dura ainda mais tempo e é caracterizada pelo mesmo tipo de miraculosidade; eu sou muito, muito sortudo."

Dexter causou uma primeira impressão muito vívida. Baseado no livro Dexter Sonho Obscuro de Jeff Lindsay, trata de um serial killer, onde o espectador ache possível ter empatia com, um pouco como Psicopata Americano Bret Easton Ellis - que está disposto a lhe trazer rosquinhas e perguntar sobre o seu dia. Nem todo mundo viu o humor, no entanto. Alguns críticos questionaram a ambigüidade moral da série, destituída de sua violência inabalável. No último ano, o adolescente inglês Andrew Conley declarou que foi Dexter que o inspirou a matar o seu irmão - posteriormente ele declarou que por muitos anos sentiu uma urgência similar para matar.

Hall sempre disse que a violência da série não é gratuita. Os fãs que se aproximam dela são inteligentes o bastante para ver o humor na série, ele diz.

"Algumas pessoas me pedem para que finja matá-las nas fotos o que eu tendo a resistir, mas são pessoas notadamente equilibradas e sadias. Talvez existam um monte de loucos mantendo suas bocas fechadas."

Mesmo agora ele acha esquisito quando estranhos querem se envolver com ele. Ele raramente aparece nos tablóides.

"Estou feliz em ser reconhecido por algo que me orgulho. Mas eu realmente não penso nisso como sendo comigo. Sei que isso é resultado de um trabalho que tenho feito, mas não me vejo como uma pessoa famosa. É importante para mim agarrar qualquer senso de privacidade que consiga, sem me tornar um recluso. É apenas minha natureza."

Hall também atuou em um punhado de filmes ao longo dos anos. Em 2003 ele interpretou um agente do FBI em Paycheck com Ben Affleck e Uma Thurman. Em 2009 ele foi um excêntrico inventor de jogos online no filme de ficção científica Gamer com Gerard Butler. Ele também participou dos dramas independentes Bereft e East Fifth Bliss e mais recentemente de um curta, Porn Rental.

"Mesmo que seja de baixo perfil, é bom afundar meus dentes em algo nos hiatos. Ajuda a recarregar minhas baterias Dexter quando eu retorno. Estive procurando personagens que são muito capazes ou exclusivamente aflitos ou talvez sejam simplesmente médianos, menos espetaculares, em quaisquer circunstâncias que se encontrarem."

No primeiro episódio da sexta temporada, Dexter assiste a uma reunião do segundo grau. Na escola ele era invisível. De repente, o bem sucedido analista de respingos de sangue é popular. Como Hall se relaciona com isso? "Eu nunca estive em uma reunião do segundo grau. Era um péssimo aluno. Não olhe para trás. Eu não tentaria de qualquer maneira."

Então o que se pode esperar? Hall diz que não está planejando furiosamente cumprir todos os principais objetivos da carreira, mas se há um papel que ele está ansioso para enfrentar, é algo que Dexter sabe tudo sobre.

"Eu não sou um pai. Eu posso um dia ser, não sei se isso é uma meta, mas é uma possibilidade intrigante. Quanto aos objetivos da vida, gostaria de cultivar um relacionamento melhor comigo mesmo e por isso, um melhor relacionamento com meus companheiros seres humanos. Trate-me com um certo grau de gentileza e graça e respeito e farei o mesmo com meus entes queridos, estranhos na rua, quem quer que seja. Além disso, vamos ver o que acontece. Se eu me tornar um pai ficarei feliz por não precisar sair todas as noites para perseguir ou matar alguém."

Tradução: @paulajes
Fonte: Nzherald.co.nz | DexterGR
    

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