terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Leia o Capítulo 1 do último livro de Dexter


Não era pra acontecer assim.


Um lampejo de aço, seguido de uma enxurrada de tiros, um coro de gemidos estrangulados e suspiros angustiados, misturando-se com o lamento distante de sirenes. Esse seria um final dramático apropriado, com uma boa contagem de corpos, uma luta fútil contra a desgraça iminente, até mesmo com uma pitada de traição, absolutamente. E então o golpe fatal, uns poucos momentos de angústia, um último suspiro cheio de remorso por coisas inacabadas e, corta! Esse seria um final apropriado para uma vida de prazer perverso. Mas não foi assim.
Não com Dexter em Durance, terrivelmente errado, caluniado, acusado injustamente de fazer coisas terríveis que ele nem sequer teve a chance de fazer. Não desta vez, pelo menos. Esta vez, esta catastrófica vez, com homicídios múltiplos, Dexter é tão inocente quanto a mais pura neve — talvez como a areia de South Beach fosse uma metáfora melhor. Embora, verdade seja dita, nada em South Beach é inocente, não mais do que Dexter, cujo
catálogo de obras ímpias lunáticas é, para ser justo, bastante extenso. Ele só não inclui qualquer coisa de eventos atuais, uma pena. Não desta vez.
E não desse jeito. Não trancado em uma pequena e fétida cela no Centro Correcional Turner Guilford Knight — e no piso superior desse lugar, o purgatório especial reservado para os monstros mais hediondos e impenitentes. Todas as liberdades primárias arrancadas. Cada momento, acordando e dormindo, sob o controle. Todo o mundo de Dexter reduzido a essa pequena cela, não mais do que uma porta de aço espessa e paredes de blocos de concreto ainda mais espessas, interrompidas apenas por uma fenda fina que permite a entrada de luz, mas não dá nenhuma vista. Uma estreita prateleira de metal com uma coisa fina e surrada sobre ela, sarcasticamente chamada de “cama”. Uma pia, uma privada, uma prateleira. O Mundo de Dexter.
E não mais que isso, nenhuma conexão com o exterior além do pequeno espaço da porta que entrega refeições “oficialmente nutritivas”. Sem internet, sem televisão, sem rádio, nada que possa distraí-lo da contemplação
de tantos pecados não cometidos – claro que eu podia solicitar material de leitura, mas descobri, por meio de uma experiência amarga, que os livros mais populares da biblioteca são os “não permitido” e os “não tem”.
Deplorável, lamentável e até mesmo lastimável. Pobre e triste Dexter, jogado na estéril pilha da sucata institucional.
Porém, claro, quem poderia ter compaixão por um monstro como eu? Ou como todos nós devemos dizer nestes dias de consciência alimentados por ações judiciais, suposto monstro. E eles supuseram isso. Os policiais, os tribunais,
o próprio sistema correcional e minha querida irmã, Deborah. Até mesmo eu, se pressionado, vou supor que eu sou, de fato, um monstro. E de fato, sem nenhuma suposição, fugi do local onde estava o corpo assassinado de Jackie Forrest, famosa atriz e coincidentemente conhecida por ser minha amante. Fui então descoberto in flagrante sangre, com os corpos da minha esposa, Rita, e de Robert, o famoso ator, para não mencionar a muito viva Astor, mas com pouca roupa, minha enteada de 12 anos. Foi ela quem matou o “famoso ator” Robert Chase, que a vestiu com uma lingerie e, em seguida, matou Rita. Pobre trapalhão que eu sou. Falhei ao tentar fazer as coisas direito e acabei despencando no profundo, escuro e possivelmente permanente poço sem fim do errado — e quase me tornei a próxima vítima de Robert.
Minha história é simples, direta e indiscutível. Descobri que Robert era um pedófilo e tinha pegado Astor. Enquanto o procurava, ele matou ackie. E, como uma última ironia, fechando com chave de ouro, Rita — minha impotente, infeliz e incorrigível Rita, Rainha dos Monólogos Desmiolados, querida e boba Rita, que não conseguia encontrar suas próprias chaves do carro mesmo se elas estivessem soldadas em seu punho — o encontrou primeiro que eu. E foi em meio à nossa briga, enquanto ele me batia e planejava uma fuga romântica com seu verdadeiro amor, Astor, que Robert acabou acertando um golpe na cabeça de Rita que a matou. Astor, enquanto eu estava caído e sem esperanças, enfiou uma faca em Robert e me libertou, terminando assim com essa aventura louca do Demente Dexter, Extraordinário Trapalhão.
Se existe mesmo um Deus, o que é, para dizer o mínimo, extremamente passível de debate, ele tem um terrível senso de humor. Porque o detetive encarregado de decifrar a carnificina era o detetive Anderson, um homem que viveu sua vida sem fazer amizade com a inteligência, a sagacidade ou a competência. E, possivelmente, porque eu sou muito generosamente dotado de todos os três, e, adicionalmente, porque ele sabia que eu era íntimo da srta. Forrest — uma coisa que ele só poderia babar e sonhar a respeito —, é que o detetive Anderson me odiava em absoluto e com toda a certeza.
Detesta, despreza, repugna e abomina o ar que eu respiro. E assim minha história simples e rapidamente se tornou um álibi, que nunca é uma coisa boa. E ainda mais rápido, deixei de estar sob suspeita para me tornar um suspeito,
e então… detetive Anderson deu uma rápida olhada na cena do crime e formou uma simples conclusão, sem dúvida, o único tipo que ele consegue formar. “Aha!”, disse ele, “Dexter é o culpado”. “A justiça está feita.” Ou algo provavelmente muito mais simples e menos elegante, mas que acabou resultando em minha promoção de suspeito a perpetrador.
E eu, ainda me recuperando da morte de Jackie, da minha passagem para uma vida nova e melhor, da morte de Rita e seu livro de deliciosas receitas, da visão de Astor com uma lingerie de seda e da destruição de toda a ordem e da segurança que eram o Mundo de Dexter, passado, presente e futuro, encontro-me algemado com as mãos atrás das costas e acorrentado ao chão de um carro-patrulha, o que me leva ao Centro Correcional Turner Guilford Knight.
Sem uma palavra gentil ou um olhar simpático de alguém, sou conduzido, ainda envolto com correntes de aço frio, para dentro do edifício enorme de concreto enfeitado com arame farpado, e para um lugar que poderia ser a espera da estação de metrô com destino ao inferno. A sala está cheia a ponto de transbordar com personagens desesperados: assassinos, estupradores e bandidos, ou seja, o meu tipo de pessoa! Mas não tive nenhum momento para me sentar e conversar com os meus colegas e supostos monstros, sem chance para “ei, cara, como está?”. Em vez disso, sou empurrado direto para a sala ao lado, onde sou fotografado, tiram minhas impressões digitais, despojado, e ganho um lindo macacão laranja. É folgado, como pede a moda, e na cor vibrante da primavera. O aroma, no entanto, tem uma mensagem menos alegre, florescendo em algum lugar entre inseticidas e essência de limão de alguma velha lavanderia chinesa. Mas não tenho nenhuma escolha de cor, nem de odor, então uso com orgulho o laranja, que, afinal, é uma das cores da marca registrada de minha alma mater, a Universidade de Miami.
E então, ainda enfeitado com algemas, sou trazido aqui, para meu novo lar, o nono andar, e depositado sem cerimônia em meu presente recanto arrumado.
E aqui estou no TGK. A casa de ópera, o teatro de espetáculos, o salão nobre. Um pequeno dente na gigantesca engrenagem correcional, que em si é apenas uma pequena peça da máquina enorme e friamente incompetente que é a Justiça. Dexter agora está sendo reformado. O que é, eu me pergunto, que eles esperam reformar? Sou o que sou, irremediável, irreparável, implacável — bem como a maioria dos meus colegas facínoras aqui no nono andar. Somos monstros, marcados desde o nascimento com desejos proibidos, e esse tipo de gente não pode ser mais corrigida assim como não se pode “corrigir” a necessidade de respirar. Pássaros têm de piar, peixes têm de nadar e Dexter tem de encontrar e esquartejar os maléficos e escorregadios predadores. Embora isso possa parecer tão incorreto, é irreversível…

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